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  • Matheus Brasilino

Sobre SpyxFamily

Hoje é dia de bancar o “otakinho”.


Farei uma breve reflexão sobre uma das animações japonesas lançadas recentemente, articulando de modo a alcançar os valores centrais da obra e assim, mensurar o que devemos aprender, ou qual a lição que o autor deseja nos transmitir. Adianto sobre os “spoilers” leves que serão necessários para fins de conclusão da análise.

Uma vez expostas as motivações, seguimos ao argumento.


Eu sempre costumo dizer que todo escritor tem um poder muito especial sobre a sociedade e que por conta disso mesmo, tem o dever de usá-lo com consciência. Esse poder seria justamente de transmitir valores as pessoas, sem que elas percebam que estão sendo influenciadas. Da alta literatura a um simples conto, tudo influencia, gravando sobre o consciente e inconsciente, aspectos da narrativa, que nos altera como ser, moldando nossa forma de ver as coisas e interferindo assim, diretamente com nossas decisões.


Por isso que nosso senhor Jesus Cristo, quando falava com as massas, usava de parábolas. Por isso que cada obra tem que ser analisada de modo profundo para sua verdadeira apreciação. E no ambiente atual, onde os inimigos da humanidade controlam a cultura, não se tem tanta expectativa para o surgimento de boas obras.

No entanto, as vezes aparece uma ou outra, de vez em quando.


“SpyxFamily” ou “Família Espiã”, escrito por Tatsuya Endo, até o momento demonstra ser uma dessas obras, com vasto potencial a ser explorado, em uma narrativa leve, humorística, mas ao mesmo tempo profunda e dramática.


Conta a história de um casal de espiões, de agências rivais, que acidentalmente formaram uma família falsa, em nome de completar uma operação. Eles não sabem da condição um do outro, escondendo sobre suas respectivas identidades e motivações. Não obstante, esse casal adota uma criança, que sem que saibam, tem poderes de ler as mentes das pessoas. Essa criança é a única que sabe de toda a situação, mas se adapta as condições de seus responsáveis, dando um toque de sua ingenuidade e pureza infantil, que “adoça” a narrativa.


O conceito é insano. O humor e carisma dos personagens carrega e prende os que assistem, tornando a série bem popular. Mas o que podemos ver, por detrás dos memes e risos? Por sorte ou graça divina, a animação também nos traz excelentes princípios, que tendem a serem esquecidos pela modernidade e que precisam ser resgatados com urgência.


Para começar, olhemos ao título. O termo “Família Espiã” está incorreto, assim como “Ataques dos Titãs” para Shingeki. O nome verdadeiro do anime é “Espionagem x Família”, com o “x” não pronunciado sendo completamente relevante. Se entendemos o título, já podemos estimar para onde a autora está nos levando. Ela quer comparar e rivalizar esses dois aspectos importantíssimos da sociedade, no seu papel para a ultima finalidade do protagonista: a paz.


“Me entender pode levar a paz mundial?” Perguntava a criança, no primeiro episódio, nos expondo sem querer aos objetivos da escritora, para justamente com máxima dedicação, dizer tudo de si ao seu protopai, para não ser um obstáculo no seu caminho. O reino dos céus é de fato das crianças.


O protagonista, por outro lado, ao ter que lidar pela primeira vez em sua vida, com uma protoesposa e uma protofilha, se humaniza mais a cada episódio, se tornando cada vez mais um patriarca ideal, conforme vai avançando em suas ambições operacionais. Muitas vezes, a espionagem conflita com a família, levando-o a ter que escolher entre a frieza da agência e o calor do seu novo lar, aumentando assim a carga emocional da trama.


Mas no fim das contas, o que é mais importante para a manutenção da paz? Espiões ou famílias?


Espiões, de fato, são muito importantes. Sun Tzu dizia que ninguém ama mais a pátria do que um espião, e que suas vitórias nunca são reconhecidas ao público. Eles vivem e morrem nas sombras, em guerra perpétua. De operação em operação, sem apreciar em nada a sua vida, dedicam-se em penitência, mortificando completamente à vontade em prol das ordens do estado. São aqueles que mais sofrem tentações. São torturados e brutalizados, sem que aja times de resgate. Por fim, quando são pegos, são negados por sua própria nação, pois nenhum líder admite que está espionando alguém, negando afiliação com o agente e dizendo na cara dele: “não vos conheço”.


Muitas guerras já foram evitadas por espiões e o contexto da narrativa, que simula a Alemanha dividida na guerra fria, demonstra ainda um período onde as agências eram amplamente financiadas e utilizadas.


No entanto, famílias são mais importantes.


São das famílias que se criam os heróis e a ausência de um lar, que se criam os vilões. Mais tarde, na narrativa, revela-se que a criança adotada foi um experimento, e que se perdeu os pais, tendo todos os motivos do mundo para a vilania. No entanto, se demonstra sensível e amável, sendo muitas vezes a conciliadora que o casal precisava. Criada por espiões, a protofilha tem como potencial tornar-se a diplomata perfeita, lendo as mentes, entendendo as dores e coincidindo os interesses, para a reunificação de seu próprio país. Mediante a isso, que operação seria mais relevante, do que a sua própria criação?


Os personagens perdem muito tempo com grandes feitos e missões mirabolantes de espionagem, para no fim do ciclo, perceberem que sua tarefa mais importante não viria das ordens do estado, mas sim, do ímpeto moral para serem os pais que a pobre criança precisa. Dali, demonstram que por mais incrível que sejam seus dons como espiões, de nada se comparam com a virtude que precisam adquirir para serem bons pais. E que nesse cenário, o homem comum é muito mais relevante para a paz, do que o melhor dos agentes.


Conforme a narrativa avança, a protofamília se torna cada vez mais uma família real, comovendo aqueles que assistem e fazendo-nos repensar sobre nossas próprias ações.


Tal lição de moralidade nos estapeia caridosamente nos dias modernos. Quantas vezes também não estamos cegos com nossos interesses mesquinhos, a ponto de negligenciar nossa própria natureza? Quantas vezes não complicamos o que deveria ser simples, em nome de grandes operações fúteis?


E o engraçado, é que hoje, nossas famílias estão destruídas e nossas autoridades nos espionam. Nunca se houve tanto investimento na guerra da informação, e ao mesmo tempo, tantos casos de divórcios, abandonos e até mesmo abortos. Estamos, como sociedade, optando pela resposta errada. Investimos na espionagem e esquecemos das crianças. Não conseguimos ainda o despertar que o protagonista conseguiu.


E é por isso também, que os progressistas odeiam esse desenho.


Certamente os feministas, os depravados e os tribais se agonizam, mediante a pureza de uma narrativa cômica bem construída. Que não nos juntemos a horda.


Infelizmente uma obra assim não foi feita por um católico, pois deveria, mas estamos perdidos e acovardados pelo pacifismo, então não somos mais capazes de escrever uma história de espionagem. Que possamos então, aprender com aqueles que não foram influenciados pelos nossos vícios estruturais, para que um dia, possamos fazer obras dessa genialidade, em nome da salvação das almas.

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