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  • Matheus Brasilino

Novelinha Livre: Anti Pets (Introdução)

Conceito Chave

O ano é 2050.


Neste futuro distópico, as pessoas se mantêm isoladas em suas casas, recebendo delas todos os suprimentos para sua subsistência. A saúde da população deteriorou a ponto de ficarem doentes por qualquer contato com outros habitantes, então criou-se uma cultura de repressão, onde não se há mais senso de comunidade e nem reuniões sociais.


A consequência clara dessa cultura, é a depressão coletiva, decorrente da solidão e aprisionamento perpétuo. O número de suicídios aumentou-se exponencialmente e sobre o desespero, restaram duas opções: Realidade Virtual ou Inteligência Artificial.

Nenhuma realidade é virtual, então aos que optam por isso, ficam presos para sempre em suas bolhas de eco e projeções na internet. Nenhuma inteligência é artificial, então aqueles que optam por isso, se entregam aos delírios da robótica, inventando amigos imaginários para repor o lugar que deveria estar ocupado por outra pessoa.


E tudo piorou com a inserção dos P.E.T.S.


Sigla para Projeto de Estabilização dos Transtornos Sociais, tal iniciativa criou androides replicantes, que conseguem imitar perfeitamente o comportamento humano. Estes simulam a companhia perfeita, e se tornaram para muitos, como membros de suas famílias, e descarregam sobre suas memórias digitais, todas as suas descargas emocionais, decorrentes do vazio de suas almas solitárias.


No entanto, há uma consequência.


Quando se expira a validade, os P.E.T.S. fogem do controle de seus mestres e os atacam, levando-os ao óbito pela violência homicida, então cada vítima, precisa se libertar de seus delírios, antes que sua hora final chegue e o leve a perdição.


Para auxiliá-los em sua libertação, nossos protagonistas são missionários de uma ordem sacerdotal impopular, que bate de porta em porta, para convencê-los a abandonar seu mundo de ilusões e enfrentar a realidade, por mais dolorosa e arriscada que aparente ser.


Inspirado na animação “Memórias Plásticas”, essa novela explorará sobre a natureza social do homem, e sobre as vias escapistas que o mesmo cria para se estabilizar no baile de máscaras que é a sociedade moderna. A introdução será a apresentação dos personagens e cada capítulo será uma casa diferente, com seus problemas e desfechos.


Nossos missionários conseguirão despertar aqueles que adormecem em suas prisões emocionais? Ou serão esmagados pela prisão tecnocrática dos P.E.T.S.?




Introdução


Em uma manhã nublada, havia um pequeno mosteiro, isolado das comunidades próximas.


Era um lugar modesto, construído de modo simples, e com materiais baratos. As paredes estavam com trincas e marcas, e o chão, descascado em boa parte da estrutura. Localizava-se do alto de um monte, e tinha difícil acesso, ligado a uma única estrada. Ao redor, só havia uma grande floresta, com uma plantação espessa, e animais agressivos. Era muito difícil de se locomover fora da via ordenada.


E na entrada, havia uma grande e penitente escadaria.


Sobre passos rápidos, conseguir-se-ia chegar ao topo andando trinta minutos, se não houvessem paradas ou interrupções no trajeto. O desgaste fazia muitos reclamarem, pois quanto mais se subia, mais difícil ficava, e aos despreparados, acostumados com o conforto dos veículos ou com a comodidade sedentária, as dores no corpo atormentavam em cada passo.


No entanto, o trajeto também era simbólico, pois aos religiosos que frequentavam o ambiente, julgavam que a busca pelos céus também era árdua e desgastante, então queriam lembrar-se disso a cada vez que saíssem de sua base, retornando-a já em penitência e impedindo assim, que o conforto mundano penetre seu ambiente.


Naquela manhã, um jovem subia em passos rápidos, não deixando que nenhuma distração, dor ou cansaço reduzisse a sua velocidade. Tinha sobre a face um semblante determinado, e até de certo fervor. Vestia um manto e tinha a cabeça raspada, demonstrando ser um dos monges do lugar. O frio, decorrente do clima nublado, acompanhado de pequenos chuviscos, lhe serviam de refresco, ao calor de sua movimentação.


Observando-o do topo, estavam dois anciões, que também tinham a mesma estética, de cabeça raspada e manto. Eles dialogavam entre sim.


­—Então esse é o menino novo?

—Sim, Andrade é o nome dele, aparenta ter muita fé. É ele que também fará os ritos de iniciação sobre sua tutela.

—Parece ter pouca idade, de onde ele veio?


Os dois anciões eram parecidos em traços, mas tinham expressões diferentes: um parecia completamente alegre, e o outro, parecia frio, ou quase inexpressivo. O segundo era o que perguntava, e o primeiro, respondia de modo completamente emocional.


—Parece que veio de uma família rica, mas foi deserdado. O patriarca o substituiu por um dos P.E.T.S.

—Isso é permitido por lei?

—Ainda não, mas a agenda para aumentar os direitos dos sintéticos está avançando mais a cada dia, o patriarca então decidiu arriscar nos novos tempos, ao invés de tolerar a fé do filho monge.

—E então agora ele se juntou a nós para pregar contra aqueles que roubaram de si, sua família, certo?

—Perspicaz como sempre, José! -Diz com um sorriso. —Mas além dessa raiva interna, que precisará ser combatida, ele demonstra um grande potencial. Creio que nessa peregrinação poderá ver por conta própria.


O jovem chega aos dois e tentava ocultar seu cansaço.


Dizia, de modo imponente.


—Me apresento as ordens do templo, para iniciar minha peregrinação.


Ambos o olhavam em tom sério, como se já o estivessem avaliando.


—Andrade, este é o Mestre José. Ele vai acompanha-lo em seu rito de iniciação, e julgará se está apto para servir conosco.

—É uma honra conhecê-lo. A vossa benção.

—Que Deus lhe abençoe. Também é uma honra, iniciaremos nossas atividades a partir de amanhã.


José ao reverenciar, estendia as mãos para dar a benção, e Andrade abaixava a cabeça. O outro ancião ainda completa.


—Como já deve saber, o rito de iniciação consiste em peregrinar até a Cidade Central, onde em nossa sede, será ordenado. No caminho, deverá pregar em todas as cidades por onde passar, e auxiliar a população no que precisarem.

Não levará posse alguma, não deverá permanecer nas cidades em mais tempo do que precisar e seguindo em frente, obedecerá às ordens do mestre para que possa ser avaliado nessa sua primeira provação.

Se for aprovado por ele, será ordenado, mas se fores reprovado, não se tornará um de nós.

—Entendi. Juro que não irei desapontá-lo. -Diz Andrade. —E obrigado por tudo que tens feito por mim até aqui.

—Sei que não vai, garoto. -Responde emocional. —Que Deus esteja convosco e a Santa Virgem vos acompanhe nessa jornada. Há muitas almas a serem resgatadas e muitos obstáculos transpassarão em seu caminho, mas mantenha-se na verdadeira fé, e as forças dos céus sempre virão a seu resgate.

Agora vamos, quero que se despeça de todo o pessoal.


Os três adentraram ao mosteiro, e prepararam-se para aquela viagem que se tornaria, definitivamente, uma marca permanente em suas memórias. Tanto nas do aprendiz, quanto nas do mestre.

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